A Crosta que a Lixa Não Conseguiu Remover
Hoje eu estava restaurando uma mesa.
Passei um bom tempo tentando remover uma camada grossa de verniz.
A lixa não estava resolvendo.
Nem a lixadeira.
Então peguei um formão.
E comecei a arrancar aquela crosta na força.
Enquanto fazia isso, uma pergunta veio à minha mente:
Quantas crostas emocionais carregamos pela vida?
Algumas saem com uma lixa.
Outras…
Só saem com um formão.
Naquela semana, muitas lembranças da minha infância voltaram.
Eu era uma criança que ia para a escola com fome.
E voltava correndo para trabalhar.
Na minha casa existia uma regra simples:
“Se não trabalhar, não come.”
Foi assim que eu cresci.
Aprendi que descanso era um luxo.
Que brincar era perda de tempo.
E que, para merecer comida, eu precisava trabalhar.
Eu tinha sonhos.
Queria ser médica.
Queria ser uma pianista famosa.
Mas os sonhos sempre esperavam.
O trabalho, não.
Enquanto outras crianças corriam pela rua brincando de pega-pega ou de taco, eu lavava a cozinha.
Limpava a casa.
Fazia tudo o que precisava ser feito para conquistar algo que deveria ser um direito de qualquer criança:
Comida.
Eu quase nunca podia brincar.
Estava sempre cansada.
Sempre trabalhando.
Hoje, muitos anos depois, percebo que aquela menina ainda vive dentro de mim.
Às vezes entro na cozinha.
Vejo uma pia cheia de louça.
E penso que estou irritada com meu marido.
Ou com meus filhos.
Mas não estou.
Quem está reagindo é aquela criança que nunca pôde dizer:
“Hoje eu estou cansada.”
“Hoje eu não quero limpar.”
“Será que alguém pode fazer isso por mim?”
Naquela época…
Ninguém podia.
Eu acreditava que, se não trabalhasse, não comeria.
E não eram refeições especiais.
Muitas vezes era apenas arroz, feijão e angu de milho.
Os ovos eram contados.
Os adultos normalmente comiam primeiro.
Eu amava limonada.
Mas o açúcar era reservado para o café da minha mãe.
Então, muitas vezes, eu simplesmente não tomava.
Às vezes eu dizia que não queria comer aquilo de novo.
A resposta era sempre a mesma:
“Então fique com fome.”
E eu ficava.
Um dia.
Dois dias.
Até que a fome fosse maior do que a vontade de resistir.
Hoje não escrevo isso para condenar minha mãe.
Pelo contrário.
Acredito que ela fez o melhor que conseguiu com a história, as dores e os recursos que tinha.
Escrevo porque finalmente estou entendendo que muitas das minhas reações de hoje…
Não nasceram hoje.
São crostas antigas.
Camadas de dor.
Camadas de sobrevivência.
Assim como o verniz daquela mesa…
Algumas marcas não saem com uma lixa.
É preciso um formão.
Dói.
Exige força.
Mas, se aquelas camadas não forem removidas, continuarão escondendo a beleza da madeira.
E acontece exatamente o mesmo conosco.
Quando não tratamos nossas dores…
Elas aparecem.
Na nossa casa.
Nos nossos relacionamentos.
Na maneira como falamos com nossos filhos.
Com nosso cônjuge.
E até conosco.
Enquanto arrancava aquele verniz antigo, senti Deus me lembrar de algo que jamais quero esquecer.
Não é a madeira que precisa ser descartada.
É apenas a crosta que já não pertence a ela.
Talvez seja assim conosco também.
Você não precisa ser descartado.
Talvez existam apenas camadas de dor escondendo quem Deus criou você para ser.
E você?
Qual é a crosta que ainda cobre a sua vida?
Qual dor antiga continua determinando as suas reações de hoje?
Será que você está bravo com as pessoas…
Ou com uma ferida que nunca foi tratada?
Quantas discussões…
Quantos medos…
Quantas exigências…
Quantas lágrimas…
Não nasceram no presente.
Nasceram em uma criança que, um dia, só estava tentando sobreviver.
Passamos anos tentando mudar os frutos.
Enquanto a raiz continua doente.
Às vezes não é falta de amor.
Não é falta de caráter.
Não é falta de fé.
É apenas uma ferida antiga pedindo para ser vista.
Eu poderia simplesmente pintar aquela mesa.
De longe…
Ela pareceria perfeita.
Mas eu saberia que a crosta continuaria escondida por baixo.
E cedo ou tarde…
Ela voltaria a aparecer.
Com a nossa alma acontece a mesma coisa.
Aquilo que não enfrentamos…
Um dia transborda.
Talvez hoje seja o dia de pegar o seu formão.
Talvez doa.
Talvez demore.
Mas a dor da restauração sempre será menor do que passar uma vida inteira escondendo aquilo que precisa ser curado.
Porque Deus nunca quis apenas mudar a aparência da nossa vida.
Ele quer restaurar a nossa essência.
ANTES E DEPOIS